Sono acordado?

Acordei de um sonho algo estranho. Palhaços corriam em círculos contínuos e incessantemente. Sem parar. Por vezes, alguns falavam comigo. Diziam-me:

Vês como é fácil? Sem temor, sem terror. É tudo tão fácil. Anda. Experimenta. Vais ver que te soltas desse teu corpo imundo e putrefacto.

Não sabia o que fazer ou dizer e deixava-me estar. Parado e imóvel. Decido aventurar-me nos pensamentos. Apenas ouço a voz interior. O meu único amigo. Companhia. Diz para voar. Sem pensar. Não o sei fazer. Nunca soube.

Sem temor, sem terror.

Não me sinto capaz. Não me sinto propriamente um Ícaro, além do mais não me apetece derreter as asas. Nunca tive vocação para anjo, nem sequer vontade. Essas mitologias já não me deslumbram. Já morreram. Faz muito, muito tempo. Mas mesmo assim, depois de tanto esforçar por contradizer aquilo em que já não acredito, decidi tentar uma última vez. Lancei-me de um prédio. Sem temor, sem terror…

Acordei na cama. Por estranho que pareça, vejo palhaços a correr a grande velocidade na janela. Batem-me à porta. Vou abrir. Um indivíduo cadavérico e muito velho. Olha-me intensamente sem dizer uma única palavra. Tem a cara pintada de branco e o nariz de vermelho. Passados alguns minutos desconfortáveis, diz:

Anda. Vamos voar. Sem temor, sem terror.

E fui. Nunca mais voltei a adormecer. Tenho insónias e nunca sei quando estou acordado ou a dormir. Já não sei se não consigo dormir ou se não consigo acordar…

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