Sentimentos de fragmentação. Os eus e o cigarro.

Hoje arquivei silêncios. Comi e mastiguei memórias que me deixaram a ferver no inferno. Deitei-me no quarto e suspirei. Senti as paredes a encurtarem as distâncias. Reduzi-me a cinzas. Olhei para o relógio e revivi momentos de desejo, luxúria. Castiguei-me. Estive 2 horas em frente ao espelho. Digeri-me. Quase me suicidei.

Tentaste a distância. Tentaste voltar à tua relação espelho-eu. Mas o papá-mamã esbofeteou-te. Voltaste ao Édipo. Esse triângulo que te cortas com ângulos demasiado agudos. Nunca voltarás atrás. Essa tua infância imunda. Esquece. Avança.

Senti ardor quando salivei. Senti pânico. Dor. Melancolia. Sentei-me a ler. Perdi-me em páginas que me engoliram. Devoraram-me e despejaram-me em sonhos pejados de escuridão. Não. Não me reencontrei. Falhei. Vou caminhar na praia. O sol. As nuvens e o céu que me espelham a alma. Qual quê? alma é massa que não tenho, escarro que não consigo cuspir e merda que não consigo cagar. Estou vazio. Estou seguro de que pelo alguém dentro de mim viverá no paraíso. Já nem sei qual de nós.

Isso. Procura. Tenta decifrar-te. És um puzzle e tu próprio queres-te resolver. Sim senhor. Talvez a dose de químicos deva aumentar substancialmente. Ou talvez devas procurar nessa ruína de dejectos a que tu chamas infância, e montá-la na ordem natural.

Perdi vontade. Um cigarro percorre o chão perdido do maço de onde fugiu. Observo aquela fuga. Imagino-me a esvaír-me em líquido numa sarjeta qualquer. Já nada sou. Já nada tenho. Já nada absorvo. Sou um corpo sem órgãos. Sem vida, sem dor…

Acordo sem dor de cabeça. O dia apresenta-se convidativo. Desco para o café e jornal. Tive um sonho estranho. Imaginei que resolvia puzzles e que era fragmentado. Sou um estranho. Talvez depois do café me sinta normal. Enfim, des-fragmentado. Já nem vozes oiço.

Sim. Vozes. Se preferes chamar assim. Ao menos agora já consegues saltar de eus. És o saltim-eus. Parabéns.

Parece que me chamam. Bem, ao menos acabo de ler o jornal. Estava um cigarro na mesa e nem tinha reparado. Suplica que o fume. Até parece que fugiu…

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