O ventre de minha mãe, e o Novo Mundo que se abeira.

Sinto-me pobre. Sinto-me destruído. A felicidade parece-me longe, distante, já suave o toque na minha pele. Afastei-me de mim como se repele um verme repugnante. Já não sou eu. Apenas estou à deriva. Agora que dei à costa numa ilha longínqua de tudo, começo a explorar. A areia fina que me toca, me acaricia os lábios e o corpo. Como um lençol, envolve-me das intempéries. Levanto-me lânguidamente, e olho a paisagem. Sinto-me um conquistador quando chegou ao Novo Mundo. Pois também eu cheguei ao Novo Mundo. Tão Novo que os velhos nem sequer existem. Não há nada que se prenda com o passado. Mal eu sabia o que me esperava. Decidir exortar às duas pedras que ali se sentavam. Conversei sobre o mundo. Sobre os homens. Sobre as dores, súplicas, injúrias, mãos dadas, beijos, cortes, suicídios e flores. Tudo numa comunhão estranha e apaziguadora. Bradei aos céus, e as pedras, imóveis, suspiraram. Deixaram-me num monólogo triste e descarnado. Sinto-me cadavérico. Avanço para a terra. Encontro árvores e mais árvores. Longos gritos, aterradores e sufocantes, os abutres e corvos pairam nas núvens cor de cobre. A paisagem que ainda há minutos era verde, passar a empastar-se de cinzento, escuro e desajeitado, como um borrão numa pintura.

Sinto-me vazio. Estou talvez deitado numa cama, enfermo, num hospital com cheiro a álcool. A putrefacção do mundo parece abater-se-me. Sinto-me um Atlas. Carrego o peso do mundo. (Mal eu sabia que mais do Novo do que do antigo).

Enveredo por caminhos tortuosos (tão tortuosos quanto a minha mente) e observo tudo à minha volta alterar-se à medida que passo. As folhas verdes, rasgadas pela sombra que enxota a luz que nunca chega; os troncos tão velhos quanto o mar, cardidos pela dor (talvez do tempo), destruídos pelos pássaros, mas que valentemente resistem às demandas dos invasores; as poças de água que rasgam a terra, acolhem o silêncio em ondas de marfim; e eu, resisto ao mundo, resisto à tentação que levou Adão a comer a maçã. Descubro uma luz intensa, cega-me. Sinto-me atraído e caminho para ela. Por momentos nada enxergo. Espero. Até que reabro os olhos, e as sensações povoam-me a pupila, ardem-me no nervo óptico, que, depois de focar, recebe os tesouros da Humanidade.

Tusso, cuspo sangue. Estou talvez canceroso. Nada sei, nada quero saber. Prefiro morrer ignorante. O esquecimento será o meu companheiro de noites de tempestade, chuva infernal que rega a minha janela e me deixa confortável no calor do lençol.

Perante tal tesouro, tão grandioso e incompreensível a mim, deixa-me extasiado. Não solto nem um suspiro, uma respiração ofegante. Fico impávido. Resta-me apenas cegar como Édipo. Morrer para o mundo. Ninguém pode aguentar. Não estava preparado, nem sequer poderia saber. Estou cego. Sangue escorre-me como fios de cabelos ruivos sob os ombros belos e desenhados. Tusso. Mais sangue se acumula na poça.

Talvez agora acordado perceba que não tenho hipóteses de sobreviver. Quando abro os olhos, nada vejo. Estarei cego? Por momentos sim, e começo a assumir essa verdade, tão forte. Depois vislumbro algo, um vulto, uma figura. Parece ter as mãos sobre mim. (Mal eu sabia que era o médico dizendo-me que finalmente podia tornar a casa, apenas fora abatido por uma constipação sem agravo). Perdido, calçei-me. Tornei a casa a pé, num esforço meditado e espontâneo. Deitei-me na minha cama, deixando-me levar pelo sono que latia em mim desde criança. Um sono enorme, um silêncio atroz. Era o ventre de minha mãe que me enlouquecera. Pois tinha a felicidade e deitara a perder quando nascera.

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