Silhuetas e corpos femininos. A secura do adeus e do novo partir.

Há qualquer coisa de místico nas silhuetas de mulher. Algo no contraluz que excita a mente e obriga-me a fragmentar em vários ‘eus’. Como se fosse um quadro cubista. Todas as perspectivas. Obrigo-me a revolver no meu espírito. Procuro obsessivamente aquilo que me marcou no passado, mal sabia que me construíra para um futuro incerto que já não vivo. Subo agora a escada em vista ao sótão das memórias. Remexer num pó infindável que esconde segredos e tragédias. Resguardo-me a meio da escada. Nem no início que me impele ao desconhecido, nem ao cimo que me instiga a abandonar sem piedade. Guardo-me no momento do êxtase que suspende o tempo e me deixa respirar. Pairo sobre as memórias, que, como o leito de um rio, liquefazem-se nas rochas e desembaraçam-se. Mas voltando à mulher. A silhueta, o recorte. A luz. Tudo elementos de um objecto em palco que nos atraí e nos seduz. Impele o olhar à descoberta (e à nossa descoberta interior). A beleza da curva seguida de mais curvas e contracurvas. A serenidade que imprimem em negativo com a luz que retoca a máscara da nova forma. Sinto-me perdido entre a minha demência e as silhuetas de que recordo.

Submete-te ao subterfúgio. Tornaste-te réptil. Nada podes fazer. Abandonaste-te. Essa tua forma disforme, esse teu mundo imundo do qual nunca sairás. Deixa-te atropelar pelas forças que te podem governar. Esqueçe-te.

A figura. Contemplo sem esqueçer o quão me faz arder as vísceras. Impulsiono-me de dor. Estou até atónito. As imagéticas que pairam na minha mente aparecem e desaparecem. Seduzem-me e castigam-me. Levam-me à desconfiança de quem não perde de vista a triste importância do seu ser. O individual dilui-se. Eu dilui-me nisto que se chama mundo. Já não sou uma ilha, tornei-me no oceano que rodeia as ilhas que escasseiam. Se calhar nunca fui uma ilha.

Caíste desprezado e patético num mundo seco. Já não evoluis. Não cresces. És perpétuo vagabundear. O sopro abandonou-te. Já não podes criar. O acto morreu.

Às tantas já me havia perdido quando contemplava as silhuetas. Foram as imagens e corpos que me seduziram e me cegaram. Secaram meu interior e sugaram tudo o que lá tinha. Sou um vazio. Um invólucro do nada. Não vivo, sobrevivo, aliás nem isso, subsisto por mera imposição filosófica do conceito de substância. Se calhar foi deus. Fica sempre bem culpar um deus. O infortúnio e a desgraça não são senão comando e vaticínios daqueles que comungam todos os dias com deuses.

Lá se foi o último fio da corda. O último aceno do barco que já partiu. A partir de agora irei vaguear à procura de nova costa. Vejamos.

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