O pó que dança no apocalipse. A cegueira da terra.

O mundo acabou. Chegou o apocalipse. As entranhas da terra submergiram, lançaram-se nos céus e devoraram o mundo com as suas garras. Eu, perdido num refúgio, algures numa montanha também perdida, olho para o horizonte a ser degolado pelo recorte da boca das entranhas. O ciclo repete-se. Sinto algo dentro de mim. O sangue escorre-me pela boca, pelos ouvidos. Cuspo sangue. Caio por terra e deito-me. A dor contorce-me de um só trago. Fico cego. Apenas vejo uma luz brilhante. Talvez seja o próximo mundo. Terei de esperar pelo julgamente.

Anda. Caminha na direcção que te aparece pela frente. Tu sabes para onde deves ir. Faz a viagem da tua morte. Completa-te no quadrado. Resguarda-te no horizonte e deixa-te ser absorvido pelos intestinos da terra. Devora-te a ti próprio num acto sumário e intempestivo. Anda. Sê forte. Nada tens a temer.

Acordo mais um dia absorto. Sinto-me empastado pelo fedor que paira no ar. Fétido, mais parece putrefacção (será do meu ser?) Talvez tenha chegado mesmo o apocalipse para mim. Talvez deva consultar alguém. Um experiente nas andanças da morte. Nas andanças do próximo mundo que sangra a cada instante, num recanto que devora cada passo que percorro. Já não tenho coragem para me erguer. Perdi as forças de outrora, estou de fácil desamparo. Quedo-me.

Sê forte. Sê homem. Completa o teu destino. Vence as fraquezas de que padeces e lança-te na metáfora da vida. Caminha. Anda. Não te deixes resvalar pelos contos e efabulações de um diabo que já partiu.

Já não sei quem sou. Não sei se me recuperarei. Lucidez era coisa do antigamente. É um adjectivo para o qual já não existe substantivo. Nem substância. Morri de mim para mim. Padeço.

Irás sofrer se não preencheres o destino que te está imposto. Serás ceifado pela deusa da água, com a sua triunfante cauda. Viverás pelas guelras na terra seca. Terás portanto uma morte lenta e esquartejante.

Consigo finalmente levantar-me e caminhar. Saio de casa, o pó que dança com o sol que o banha já pousou. Se calhar não sou mais que pó, que poeira num tempo passado banhado por uma metáfora já gasta e fora de prazo. Enfim, sai e senti as carícias do sol na minha face. Transfigurei-me. Mudei de máscara. Sou fragmento e não mais serei um.

Assim me senti hoje, quando acordei e pensei no conhecimento da vida que termina com uma morte distante.

Evapora-te. Plasma-te no próximo mundo. Deixa-te morrer no destino que te foi incumbido.

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