A bala e a morte. Descanso unilateral.

Há em mim uma inquebrantável certeza de que registarei singularmente a minha demência, e marcarei no mundo a minha fragmentação. Terei sempre uma voz presente, um vácuo despido de emoções, mas sempre reactivo. Acompanhar-me-á sempre que me deslocar no tempo, no espaço, e no interior da minha mente. Não poderei aliená-lo de mim próprio, pois, no fundo, estaria a alienar-me a mim próprio. Sou o outro que se reflecte em mim e no outro.

Caminhamos juntos pela caminho escondido do sol, pela sombra apetecida e desejada por qualquer um que repela as temperaturas quentes. Lado a lado, trespassavam as balas do vento, a rajada que nos embrulhava nesse cheiro a alfazema. Passeava sozinho mas não estava só. O meu fragmento presenteava-me com a surpresa de um oxalá do deus das fúrias. Contemplavamos a serenidade e imperturbabilidade da bicharada que pairava suspenso na brisa.

Inquietantes e trémulos estavam os corpos que estremeciam perante a sentença da morte. Não, da sua morte. Porque a morte não é geral, mas particular e singular. Daí a não existência da ‘nossa’ morte. Contudo, conscientes de tal facto, aguardavam erraticamente a bala fatal. Esse dispositivo que iria perfurar a carne, o coração e toda a metafísica consubstanciada por um deus perdido algures no universo.

Parábolas e mitos invejavam as escolas concorrentes. A academia renascia como a fénix das cinzas, reemergia desse pó indistinto e soturno. A hegemonia era cabal. O domínio absoluto imperava não só nas mentes mas na metafísica da consciência colectiva. Quiçá o Espírito Absoluto também se contentava. As filosofias infiltravam-se quotidianamente e apoderavam-se das psicologias e dos transtornos das personalidades. Freud renascera.

Colectivamente, a sobeja popular aumentava de ano a ano. Produzia-se menos e consumia-se mais. A gula era a raínha da noite.

A noite parecia uma opala reluzente no céu dançante. Queimavam-se as bruxas com pretextos de opróbrio. A abejecção estava no pódio, reinante sobre os demais pecados. Obrigadas a abjurar, soluçavam na tristeza profunda ao saberem o fatal destino de que padeceriam. Os acontecimentos infortunados concomitantes com sucessivas coroações despropositadas de nobres e condes. Os títulos jorravam como o vinho na mesa do povo.

Morri. A fragmentação acabou. Abatera-se sobre mim o término da vida. Ou talvez adormeci e tornei-me uno nas ondas cerebrais…

Anúncios

One thought on “A bala e a morte. Descanso unilateral.

  1. Estude o livro de Kardec, O livro dos espíritos, adoraria ler um texto seu neste tipo de filosofia, pois percebi que navegas em muitos mares de conhecimento… boa noite!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s