O início do fim

Onde via azul agora vejo negro. As cores tornam-se mudas e a invasão do negro apodera-se do espectro. Conseguia antes vislumbrar toda a continuidade dos movimentos singelos e elegantes do mundo, onde agora movimentos bruscos, ameaçadores e fatais se perfilam na minha direcção. Se quisesse alucinava, mas infelizmente tornei-me homem de delírios, depressões agudas que ressoam agora a toda a hora no meu inconsciente. Representam-se sob vozes brutais que me avassalam e conduzem à minha paranóia descontente. Onde antes quereria morrer sossegadamente, já nem desejar a morte atroz e severa consigo. Alucinei-me perante o mundo, uma vez mais sem desperdício ou desejo, embora consciente e voluntário, sem qualquer outra condição me tornei insano.

Sou hoje esquizofrénico. Sou paranóico e sonho o que vejo, vendo o que sonho através dos delírios paranóicos e acutilantes. Distancio-me e quero morrer, aproximo-me da nova costa que construí na minha mente e sinto medo. Estou em pânico com as teorias da minha conspiração. Querem-me matar. Querem-me drogar e ferir-me. Querem-me amordaçar e deixar a apodrecer numa cave impune e transpirante. Escura como o negro que me invade, esmorecendo as tonalidades.

Quero morrer na minha ilusão. Quero desvanecer violentamente. Deixar de existir, abandonar o mundo que me tornou abstracto. Não quero prolongar a minha estadia. Quero até suicidar-me, derramar o sangue das veias cortadas e abertas perante o céu azul e negro. Deixem-me morrer… 

Entro no bar e prolongo-me para o balcão. Peço uma bebida, whisky, e guardo ferozmente o meu copo. Tornei-me paranóico. Pois, já o disse. Há uma mesa com indivíduos que não param de me fixar com o olhar. Querem-me drogar, rasgar-me a pele e roubarem-me os órgãos. Tenho de sair disfarçadamente sem perturbar a conversa da mesa. Vou fingir que vou à casa de banho e dirijo-me para a saída. Isso, sim. Não, à saída há uma câmara de filmar que me registou. Pois, não posso sair agora. O que vou fazer? Talvez na casa de banho haja uma janela perdida que me permita a delicadeza de escapar. Mas e se a janela me conduz a uma vertigem? A uma altura que não suporto? Não, vou beber calmamente. Não, não posso beber, podem já ter drogado a minha bebida. Vou-me sentar, não, vou para ali encostar-me à parede e… Largo a bebida, o copo parte-se em mil pedaços estilhaçados por uma sinfonia aguda, e eu corro esbarrando num casal que entrava. Fugi, fugi para longe. Para não ser encontrado.

Sobrevivi na mágoa da minha dor. Esbati-me no medo. A minha condição de lançado no mundo levou-me a desejar a morte e a espicaçar-me no corpo. Quero solucionar a minha vertigem da vida, o meu abismo errante.
Quero morrer. Deixem-me morrer…

Cheguei ao prédio abandonado e macilento. Rodei a chave e abri a porta. Não, tenho de me apressar porque me estão a espiar. Querem-me copiar a chave para me apanharem no sono profundo e partirem-me os joelhos. Querem-me roubar. Não, vou ficar aqui nas escadas. Já sei! Vou ficar por baixo das escadas. Ninguém me vê. Sim. É isso. A chuva vai-me cantar aos ouvidos e embalar no sono leve. Sim. Mas e se um vizinho alerta os que me espiam? E se lhes abre a porta? É melhor esconder-me nos arrumos. Sim, nos arrumos. Vou esconder-me nos arrumos.

Nunca pensei acabar perdido na minha própria mente. Nunca imaginei morrer dentro da minha mente soturna e incapaz. Já não ouço nada. O mundo deixou de falar comigo. Deixou de me ouvir. O que vale é que tenho a companhia do meu amigo que conversa comigo horas a fio. Sim, está sempre a avisar-me dos perigos que incorro. Que sorte! Todos deveriam ter um amigo assim! Mas nem ele me convence a não morrer. Quero morrer sozinho em casa. Quero que ele assista. Quero que ele não se silencie no meu momento fatal e único. Desejo para sempre morrer eternamente no vácuo. Mas quero sofrer. 

Prolongo-me aqui no vão da escada. Deixo-me permanecer quieto. Talvez fosse melhor… não sei… desaparecer ou assim. Morrer. Isso, morrer. Assim ninguém me perturba e persegue. Sim. Vou-me matar. Vou tirar a lâmina e cortar os pulsos. A artéria principal que me deixará estendido em sangue. Sim! Descobri. É isso. Que bom… Que sensação de frescura…

O meu amigo contou-me que as pessoas podem ser perigosas. Há até uns grupos que vigiam pessoas para lhes fazerem mal e roubarem. Roubarem órgãos em casas de banho. Sim. Ele convenceu-me que não me posso matar. Não posso morrer porque senão as pessoas que me vigiam me podiam roubar. Já não quero morrer. Espera, tenho outro amigo agora. Já tenho dois. Que sorte! Dois amigos. Estou no meu quarto. Tranquei-me para conversar à vontade com os meus dois amigos. É de noite, os meus pais saíram e só estou eu aqui. Que sorte ter dois novos amigos… Vamo-nos dar bem com certeza. Sim! Agora tenho com quem conversar…

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