Mudança de site. Emergências.

•Fevereiro 7, 2008 • Deixe um comentário

O presente blog tem novo endereço: http://esquizofragmentos.blogspot.com/

(Re)torno

•Fevereiro 5, 2008 • 1 Comentário

Percorro paisagens e paisagens em direcção ao nada. Múltiplas fracturas significam quimeras. O sonho acordado reflecte o meu eu paralelo aos meus eus quando durmo. A vigília confunde-se no sono. Esbatem-se pensamentos, discursos e narrativas.

Deixei de ser eu ou passei a ser eu? Fugi de mim ou retornei a mim?

Ressurjo das profundezas. Das cinzas do tempo refaço-me, como Fénix. Talvez me tenha absolutizado. A dor já não importa. Agora percorro desertos. Corro e corro e corro até ficar sem ar. Até cair no chão. Talvez morra feliz. Ou cansado. Já não sei o que digo.

De profundis clamo ad te, domine.

Noise. Texturas e progressão do meu eu.

•Maio 5, 2007 • Deixe um comentário

A cor uniforme do céu deixa-me psicótico. Não quero ser homogéneo. Não me vou padronizar. Basta.

White Noise nas escadas, escondem-se das plateias. O firmamento acompanha o solo. A orquestra pára. Noise. Perene e constante. Isto não sou eu.

Árvores e batidas formam-se inigualáveis. A morte em queda, no precipício daquela dor no fundo. No fundo do peito, ou do ser. Um deles. Já começo a ser eu.

A praia desliza pelo mar dentro, cobre o céu de espuma e vomita encrespada para o paredão. Não torna a amanhecer. Privamos o sono. Somos agora esquizo-afectivos. Morte. Quase eu.

Cores mudas, sons invisuais, o tacto cheira a carmim e o olfacto cobre-se de texturas amargas. Sou plenamente esquizo. Frénico esqueci-me. Mas gosto muito do esquizo, logo gosto de mim. Sou auto-destrutivo. Sou, enfim, feliz. Vivo no espaço que jamais cabe no tempo. Sou agora infinito e fragmentado. Não encaixo nas psicanálises, nem nisso. Sou um estrangeiro a tempo inteiro. Agora posso morrer sem dor. Enfim, feliz.

Sentimentos de fragmentação. Os eus e o cigarro.

•Abril 26, 2007 • Deixe um comentário

Hoje arquivei silêncios. Comi e mastiguei memórias que me deixaram a ferver no inferno. Deitei-me no quarto e suspirei. Senti as paredes a encurtarem as distâncias. Reduzi-me a cinzas. Olhei para o relógio e revivi momentos de desejo, luxúria. Castiguei-me. Estive 2 horas em frente ao espelho. Digeri-me. Quase me suicidei.

Tentaste a distância. Tentaste voltar à tua relação espelho-eu. Mas o papá-mamã esbofeteou-te. Voltaste ao Édipo. Esse triângulo que te cortas com ângulos demasiado agudos. Nunca voltarás atrás. Essa tua infância imunda. Esquece. Avança.

Senti ardor quando salivei. Senti pânico. Dor. Melancolia. Sentei-me a ler. Perdi-me em páginas que me engoliram. Devoraram-me e despejaram-me em sonhos pejados de escuridão. Não. Não me reencontrei. Falhei. Vou caminhar na praia. O sol. As nuvens e o céu que me espelham a alma. Qual quê? alma é massa que não tenho, escarro que não consigo cuspir e merda que não consigo cagar. Estou vazio. Estou seguro de que pelo alguém dentro de mim viverá no paraíso. Já nem sei qual de nós.

Isso. Procura. Tenta decifrar-te. És um puzzle e tu próprio queres-te resolver. Sim senhor. Talvez a dose de químicos deva aumentar substancialmente. Ou talvez devas procurar nessa ruína de dejectos a que tu chamas infância, e montá-la na ordem natural.

Perdi vontade. Um cigarro percorre o chão perdido do maço de onde fugiu. Observo aquela fuga. Imagino-me a esvaír-me em líquido numa sarjeta qualquer. Já nada sou. Já nada tenho. Já nada absorvo. Sou um corpo sem órgãos. Sem vida, sem dor…

Acordo sem dor de cabeça. O dia apresenta-se convidativo. Desco para o café e jornal. Tive um sonho estranho. Imaginei que resolvia puzzles e que era fragmentado. Sou um estranho. Talvez depois do café me sinta normal. Enfim, des-fragmentado. Já nem vozes oiço.

Sim. Vozes. Se preferes chamar assim. Ao menos agora já consegues saltar de eus. És o saltim-eus. Parabéns.

Parece que me chamam. Bem, ao menos acabo de ler o jornal. Estava um cigarro na mesa e nem tinha reparado. Suplica que o fume. Até parece que fugiu…

A ilusão da cura na insanidade.

•Abril 7, 2007 • 1 Comentário

A subtileza ressurgia na frescura da minha nova personalidade. Já não me debato internamente como um ego refractado. Sou agora um. Uno. O indivisível. Falo por mim e por mim só, não dialogo comigo mesmo. O outro já não habita em mim. Estou curado.

Desejas tanto a cura que nem te apercebes da gravidade em que te tornas-te. Cada vez mais cavas fundo. O teu interior alarga-se a cada dia. A cura, meu caro, é coisa de um passado apenas pensado. Nunca foi possibilidade. Desde que nasceste que padeces de um destino que nada podes fazer (ou pensar) para o alterar.

Sinto-me rejuvenescido. Sinto-me outro, pelo menos no bom sentido da palavra. Estou sarado. As feridas fecharam-se. No entanto sinto-me à deriva dentro de mim próprio, caminhando para um fundo inóspito. Sinto-me em constante queda. Mas, pelo menos, já não sinto as vozes abaterem-se-me sobre o meu espírito.

Patético. Patético e sem salvação. Jamais serás são. Tempos e memórias perder-se-ão a cada dia. Assistirás ao teu próprio declínio sem sequer saberes. E mais, nada poderás fazer. Nenhuma metáfora te amparará nesse futuro escuro e sem fundo que te irá molestar dia a dia. Só te resta morrer.

Pareço bem mas sinto-me corroído por dentro. Os sonhos e esperanças morrem num segundo. Sei que a voz me acompanha de novo, sempre esteve e sempre estará, devorando-me pelas sombras e pensamentos doentios. Não sei o que sentir, não sei o que imaginar. Perdi-me hoje. Enfim, afundei-me.

A última condição humana. Vida e morte. Indiferença.

•Fevereiro 23, 2007 • 1 Comentário

Sinto-me um verme. Um abjecto. Estou diluído entre o desprezível e o torpe. Nada mais sou do que algo, que nem substância se pode denominar, e no entanto, caminho neste mundo como qualquer um. Sou um deus acorrentado. Sou um ostracizado. Sou um estrangeiro. Diverso de mim mesmo, estou refractado.

Desceste ao fundo dos infernos. Não escapaste à caverna que te foi destinada. Viverás cada vez mais fundo, cada vez mais angustiado e sobretudo, cada vez mais só. Rasgarás a tua carne com as tuas próprias mãos, mas sem o saberes, culparás o outro. Culpar-te-ás. Serás desfeito por ti próprio. És, tristemente, o teu próprio carrasco.

Estou vivo. Ao menos isso posso segredar a todos aqueles que não me consigam ouvir. Talvez porque seja menos do que substância, mas decerto algo conseguirei atingir. Quero a felicidade. A perfeição. No fundo, tudo desejo e sei que nada alcançarei. Sou, mais uma vez, um dejecto da existência levantada por deus criador.

Arrastaste-te brilhantemente ao teu destino informe. Imundo. Serás decepado e serás retalhado em mil pedaços, com uma faca de dois gumes, afiada apenas num lado, e rotunda no outro, para que sintas a dor duas vezes, uma ainda mais funda do que a outra. Assim, saberás e ser-te-á relembrado a tua condição de afundado. Receberás do teu carrasco, tu mesmo, tudo aquilo que necessitas para sobreviver, dor e mente…

Sei que desejarei morrer. Já o sei desde cedo. Desde que adquiri locomoção. O movimento permite-me saber para onde caminho, para aquilo que me está destinado e sobretudo para aquilo que sentirei quando lá chegar. Já não aguento angústias e melancolias. Foi tempo. Foram infâncias e adolescências que mo permitiram. Agora, ainda não sendo velho, sinto-me despido. Sinto-me nu, sinto-me vencido por uma vida pobre e seca. Já nem sei o que sou.

Lá no fundo, naquilo que te criou e embalou durante anos a fio, aquela escuridão que te segurou sobre o abismo em que se tornou a tua vida, é isso que te mantém vivo. Mas, se o teu destino é a escuridão, o silêncio e a morte em si, que restará de ti senão assumires outra vez uma vida em que sempre desejaste não vivê-la? Para ti, morrer será um acto eterno, em que estás condenado a repetir a tua vida imunda. Assim, saberás o que é ser um deus num terra de humanos…

O ventre de minha mãe, e o Novo Mundo que se abeira.

•Fevereiro 12, 2007 • Deixe um comentário

Sinto-me pobre. Sinto-me destruído. A felicidade parece-me longe, distante, já suave o toque na minha pele. Afastei-me de mim como se repele um verme repugnante. Já não sou eu. Apenas estou à deriva. Agora que dei à costa numa ilha longínqua de tudo, começo a explorar. A areia fina que me toca, me acaricia os lábios e o corpo. Como um lençol, envolve-me das intempéries. Levanto-me lânguidamente, e olho a paisagem. Sinto-me um conquistador quando chegou ao Novo Mundo. Pois também eu cheguei ao Novo Mundo. Tão Novo que os velhos nem sequer existem. Não há nada que se prenda com o passado. Mal eu sabia o que me esperava. Decidir exortar às duas pedras que ali se sentavam. Conversei sobre o mundo. Sobre os homens. Sobre as dores, súplicas, injúrias, mãos dadas, beijos, cortes, suicídios e flores. Tudo numa comunhão estranha e apaziguadora. Bradei aos céus, e as pedras, imóveis, suspiraram. Deixaram-me num monólogo triste e descarnado. Sinto-me cadavérico. Avanço para a terra. Encontro árvores e mais árvores. Longos gritos, aterradores e sufocantes, os abutres e corvos pairam nas núvens cor de cobre. A paisagem que ainda há minutos era verde, passar a empastar-se de cinzento, escuro e desajeitado, como um borrão numa pintura.

Sinto-me vazio. Estou talvez deitado numa cama, enfermo, num hospital com cheiro a álcool. A putrefacção do mundo parece abater-se-me. Sinto-me um Atlas. Carrego o peso do mundo. (Mal eu sabia que mais do Novo do que do antigo).

Enveredo por caminhos tortuosos (tão tortuosos quanto a minha mente) e observo tudo à minha volta alterar-se à medida que passo. As folhas verdes, rasgadas pela sombra que enxota a luz que nunca chega; os troncos tão velhos quanto o mar, cardidos pela dor (talvez do tempo), destruídos pelos pássaros, mas que valentemente resistem às demandas dos invasores; as poças de água que rasgam a terra, acolhem o silêncio em ondas de marfim; e eu, resisto ao mundo, resisto à tentação que levou Adão a comer a maçã. Descubro uma luz intensa, cega-me. Sinto-me atraído e caminho para ela. Por momentos nada enxergo. Espero. Até que reabro os olhos, e as sensações povoam-me a pupila, ardem-me no nervo óptico, que, depois de focar, recebe os tesouros da Humanidade.

Tusso, cuspo sangue. Estou talvez canceroso. Nada sei, nada quero saber. Prefiro morrer ignorante. O esquecimento será o meu companheiro de noites de tempestade, chuva infernal que rega a minha janela e me deixa confortável no calor do lençol.

Perante tal tesouro, tão grandioso e incompreensível a mim, deixa-me extasiado. Não solto nem um suspiro, uma respiração ofegante. Fico impávido. Resta-me apenas cegar como Édipo. Morrer para o mundo. Ninguém pode aguentar. Não estava preparado, nem sequer poderia saber. Estou cego. Sangue escorre-me como fios de cabelos ruivos sob os ombros belos e desenhados. Tusso. Mais sangue se acumula na poça.

Talvez agora acordado perceba que não tenho hipóteses de sobreviver. Quando abro os olhos, nada vejo. Estarei cego? Por momentos sim, e começo a assumir essa verdade, tão forte. Depois vislumbro algo, um vulto, uma figura. Parece ter as mãos sobre mim. (Mal eu sabia que era o médico dizendo-me que finalmente podia tornar a casa, apenas fora abatido por uma constipação sem agravo). Perdido, calçei-me. Tornei a casa a pé, num esforço meditado e espontâneo. Deitei-me na minha cama, deixando-me levar pelo sono que latia em mim desde criança. Um sono enorme, um silêncio atroz. Era o ventre de minha mãe que me enlouquecera. Pois tinha a felicidade e deitara a perder quando nascera.

Silhuetas e corpos femininos. A secura do adeus e do novo partir.

•Fevereiro 8, 2007 • Deixe um comentário

Há qualquer coisa de místico nas silhuetas de mulher. Algo no contraluz que excita a mente e obriga-me a fragmentar em vários ‘eus’. Como se fosse um quadro cubista. Todas as perspectivas. Obrigo-me a revolver no meu espírito. Procuro obsessivamente aquilo que me marcou no passado, mal sabia que me construíra para um futuro incerto que já não vivo. Subo agora a escada em vista ao sótão das memórias. Remexer num pó infindável que esconde segredos e tragédias. Resguardo-me a meio da escada. Nem no início que me impele ao desconhecido, nem ao cimo que me instiga a abandonar sem piedade. Guardo-me no momento do êxtase que suspende o tempo e me deixa respirar. Pairo sobre as memórias, que, como o leito de um rio, liquefazem-se nas rochas e desembaraçam-se. Mas voltando à mulher. A silhueta, o recorte. A luz. Tudo elementos de um objecto em palco que nos atraí e nos seduz. Impele o olhar à descoberta (e à nossa descoberta interior). A beleza da curva seguida de mais curvas e contracurvas. A serenidade que imprimem em negativo com a luz que retoca a máscara da nova forma. Sinto-me perdido entre a minha demência e as silhuetas de que recordo.

Submete-te ao subterfúgio. Tornaste-te réptil. Nada podes fazer. Abandonaste-te. Essa tua forma disforme, esse teu mundo imundo do qual nunca sairás. Deixa-te atropelar pelas forças que te podem governar. Esqueçe-te.

A figura. Contemplo sem esqueçer o quão me faz arder as vísceras. Impulsiono-me de dor. Estou até atónito. As imagéticas que pairam na minha mente aparecem e desaparecem. Seduzem-me e castigam-me. Levam-me à desconfiança de quem não perde de vista a triste importância do seu ser. O individual dilui-se. Eu dilui-me nisto que se chama mundo. Já não sou uma ilha, tornei-me no oceano que rodeia as ilhas que escasseiam. Se calhar nunca fui uma ilha.

Caíste desprezado e patético num mundo seco. Já não evoluis. Não cresces. És perpétuo vagabundear. O sopro abandonou-te. Já não podes criar. O acto morreu.

Às tantas já me havia perdido quando contemplava as silhuetas. Foram as imagens e corpos que me seduziram e me cegaram. Secaram meu interior e sugaram tudo o que lá tinha. Sou um vazio. Um invólucro do nada. Não vivo, sobrevivo, aliás nem isso, subsisto por mera imposição filosófica do conceito de substância. Se calhar foi deus. Fica sempre bem culpar um deus. O infortúnio e a desgraça não são senão comando e vaticínios daqueles que comungam todos os dias com deuses.

Lá se foi o último fio da corda. O último aceno do barco que já partiu. A partir de agora irei vaguear à procura de nova costa. Vejamos.

O pó que dança no apocalipse. A cegueira da terra.

•Fevereiro 8, 2007 • Deixe um comentário

O mundo acabou. Chegou o apocalipse. As entranhas da terra submergiram, lançaram-se nos céus e devoraram o mundo com as suas garras. Eu, perdido num refúgio, algures numa montanha também perdida, olho para o horizonte a ser degolado pelo recorte da boca das entranhas. O ciclo repete-se. Sinto algo dentro de mim. O sangue escorre-me pela boca, pelos ouvidos. Cuspo sangue. Caio por terra e deito-me. A dor contorce-me de um só trago. Fico cego. Apenas vejo uma luz brilhante. Talvez seja o próximo mundo. Terei de esperar pelo julgamente.

Anda. Caminha na direcção que te aparece pela frente. Tu sabes para onde deves ir. Faz a viagem da tua morte. Completa-te no quadrado. Resguarda-te no horizonte e deixa-te ser absorvido pelos intestinos da terra. Devora-te a ti próprio num acto sumário e intempestivo. Anda. Sê forte. Nada tens a temer.

Acordo mais um dia absorto. Sinto-me empastado pelo fedor que paira no ar. Fétido, mais parece putrefacção (será do meu ser?) Talvez tenha chegado mesmo o apocalipse para mim. Talvez deva consultar alguém. Um experiente nas andanças da morte. Nas andanças do próximo mundo que sangra a cada instante, num recanto que devora cada passo que percorro. Já não tenho coragem para me erguer. Perdi as forças de outrora, estou de fácil desamparo. Quedo-me.

Sê forte. Sê homem. Completa o teu destino. Vence as fraquezas de que padeces e lança-te na metáfora da vida. Caminha. Anda. Não te deixes resvalar pelos contos e efabulações de um diabo que já partiu.

Já não sei quem sou. Não sei se me recuperarei. Lucidez era coisa do antigamente. É um adjectivo para o qual já não existe substantivo. Nem substância. Morri de mim para mim. Padeço.

Irás sofrer se não preencheres o destino que te está imposto. Serás ceifado pela deusa da água, com a sua triunfante cauda. Viverás pelas guelras na terra seca. Terás portanto uma morte lenta e esquartejante.

Consigo finalmente levantar-me e caminhar. Saio de casa, o pó que dança com o sol que o banha já pousou. Se calhar não sou mais que pó, que poeira num tempo passado banhado por uma metáfora já gasta e fora de prazo. Enfim, sai e senti as carícias do sol na minha face. Transfigurei-me. Mudei de máscara. Sou fragmento e não mais serei um.

Assim me senti hoje, quando acordei e pensei no conhecimento da vida que termina com uma morte distante.

Evapora-te. Plasma-te no próximo mundo. Deixa-te morrer no destino que te foi incumbido.

Será que pertenço a Bali? Metafísicas e o livro que me matou.

•Fevereiro 1, 2007 • Deixe um comentário

Acordei hoje indistinto ao mundo. Sou mais uma forma. Uma vazio. Ao menos, para que assim seja, tenho de subsistir, pois para ser esquizofrénico, tenho de pensar (ou não). Assegurada a minha existência, a minha metáfora que acompanha passo a passo a metafísica que suporta o meu mundo deteriora. Como bolas de fogo, e cuspo canções de embalar molhadas em vinho tinto. Caminho no infinito, e um deus para-me. Interroga-me: És filho de Bali? Não sei, mas talvez consiga escrever um poema. Não sei, sinto-me estranho. As palavras saem-me mas o significado fica-me na língua. É o que se chama a semântica linguística. Pelo menos não queimei a pele.

Sai para o mundo. Aventurei-me. Sinto-me um Ulisses. Mas não quero queimar as ases no sol. Não. Espera. Esse era Ítaco. Sinto-me confuso hoje.

O nevoeiro ao longe, levanta-se a bruma dos tempos e absorve-me. Estás pálido. Volta para a cama e mantém-te no sonho que não te acorda.

A frescura da brisa ataca-me a cara. Lutamos e consigo vencer o frio. Já não preciso de temer o deus do vento. Fui até ao café. Li. Fernando Pessoa apontou-me o dedo e intimidou-me. O universo chama-me. Olha para a parede e leio: Viaje até Bali. Um mundo à sua espera. Reflicto. Se calhar é o meu destino. Ir até Bali.

Princípe errante. Bali afigura-se um destino digno do teu reino. Sem doenças. Local inóspito. Vais dar-te bem.

Sou eu outra vez. Passo por casa, pego na mochila, carteira, dinheiro e um livro. Vou para o aeroporto, compro a viagem. Bali. Cheguei. Foi rápido. Parece um sonho. Vejo a praia. O sol ardente queima-me as folhas do livro. Perdi o meu sustento. Acordo no meu quarto. Lá se foi a metafísica.

Parece que não sou filho de Bali. O deus não me quis. Andei errante como um vagabundo. Talvez tenha sofrido o suficiente para deixar os pecados guardados na gaveta. Não sei. Como e deito-me. Passou mais um dia.

Agora já sabes o que é ser filho. Pertencer a algo que te escapa. Mataste a tua metafísica. Cortaste o último laço que tinhas com a realidade. Perdeste. Fracassaste e agora nada podes fazer. Boa fortuna!