a minha esquizofrenia e como me tornei esquizofrénico

ironias do inconstante

Publicado em Uncategorized por maquiavel, em Dezembro 10, 2009

sinto-te. não uma daquelas sensações inequívocas, mas algo difusas no campo de actuação, tal como aquela expressão do “nada se perde, tudo se transforma”. Nada concreto, nem preciso de o ser. Basta a presença da sensação. no entanto era algo oblíquo, digamos. A  não-linearidade dispersava-se no espaço e no tempo à medida que a dor associada se tornava mais latente.

Sempre foi um mistério. A dor e uma sensação difusa não parecem um par feliz. ou talvez nem seja uma questão de paridade, mas uma questão de concordância. que dizer disto? não sou lacónico. sou algo difuso. se bem que entenda a difusão num sentido de dispersão e “desvio do padrão”.

mas, pensando bem, nada foi um padrão. ou mesmo o tempo se entendido como linear nunca o é porque nunca o detemos verdadeiramente. mas, afinal, o que é que verdadeiramente detemos? a incerteza por certo…

como é bom a ironia. e, no fundo, a metáfora do esforço desmedido enquanto casamento de opostos. o paradoxo. o inconciliável. deixemo-nos respirar no caos.

sim, a par e passo, afastamo-nos do conforto em direcção à morte. inconstante sim, mas nunca por certo…

não-deus

Publicado em à deriva por maquiavel, em Dezembro 3, 2009

Nunca pensei muito em deus – aliás porque ele raramente pensa em mim. admito a ubiquidade, mas sem grande exéquias. penso, isso sim, na minha destreza em caminhar junto ao mar e sentir os ventos olímpios… não, esse era zeus. o grande irmão… escuta-nos desde sempre, e mantém um pequeno livro de bolso com todos os nossos movimentos. coordenada a coordenada. eu sinto-o. a cada segundo que passa.

mas um dia acordei e decidi redimir-me desta expiação a que me forçei. declarei a figura como não-deus. e pronto. agora apenas tenho de fugir dos não-anjos. esses sim, roubam-me os sonhos. e depois processam-nos por diferentes máquinas que analisam cada imagem. cada instante… não tenho hipóteses.

não quero socorrer-me das feridas abertas. chega. adormeci aos soluços. com febre. já nem me sinto, é o corpo em delírio…

é este o sintoma do novo mundo?

sim… acredita. desde que acredites tudo correrá bem. mantém-te nas ideias singulares, terás tempo para o caos..

Cirurgia metafísica

Publicado em à deriva por maquiavel, em Dezembro 1, 2009

despido e nú decidi terminar as minhas dúvidas metafísicas. Peguei no bisturi e abri uma fenda na perna. Um fio de sangue cada vez mais largo escorria. A dor era simpática. Piorou. Bastante. Atroz. Com o dedo rasguei mais a carne e tirei o chip implantado. Senti uma serenidade que me levou ao chão.

Sim… Foi o melhor que fizeste. Eles deixaram de nos poder escutar. Agora só te faltam os outros 90.

Cores balanceavam diante dos meus olhos enquanto o vermelhor jorrava como uma fonte. A carne apodrecia dos dias a fio. A sorte dos estultos. Ignorância. Não a possuo. Quero morrer convicto.

Sim. Voltei aos infernos que sempre desejei desde criança. Fumos e cidades de papel construíam-se de novo no meu horizonte. A inocência retornava. Ou talvez não, já não tenho esse poder. A projecção deixou o objecto.

Sou agora um sujeito sem objecto num mundo povoado por corpos vazio. Serei eu o do olho na terra dos cegos? Ou sou um cego numa terra de visionários?

Aguarda o destino… Esse mundo já vem a caminho.

In(só)mnia

Publicado em à deriva por maquiavel, em Dezembro 1, 2009

Corri mundos em flecha. Imagens à velocidade da luz queimam-me as pálpebras. O ardor e o odor a carne queimada faz-me sentir em casa. As nuvens de fumo sobem até ao tecto, para morrerem e pairarem sobre o éter. Uma cara ganha forma. (Será o meu longo e distante amigo cuja voz me acompanha?)

Já não consigo respirar. Dói-me o simples pestanejar. Estou semi-morto. Um trapo. Não, um trapo não, estou apenas retido num mundo seco e disforme. É isso.

Boa… já aprendeste a regurgitar a decadência sob a forma de auto-(des)crença. Continua.

Sim, quero resguardar o corpo das intempéries. Escorrego cada vez que me levanto e dou o passo seguinte. Sinto o destino longínquo. Mundos, muitos mundos. Muitas retinas e queimaduras tão perto. Sinto o vómito a saborear o pescoço. Caio no fundo. O poço rasga-se na carne em sentido espiral cuja direcção aponta para fora do quarto. Será o Céu? Tão abalado espírito conseguirá atingi-Lo? Não. Quero dormir. Isso.

Que deleite.

Isso, adormece em plena insónia. Que admirável mundo novo…

jazia enquanto arrefecia

Publicado em Uncategorized por maquiavel, em Dezembro 1, 2009

O acervo de emoções reprimidas. lembro-me quando desejei a morte do progenitor. Rasgar o triângulo no corpo. jazia morto e arrefecia enquanto o céu me cuspia. Ou deus. não sei.

isso. reprime. faz-te bem à alma. infinitos cortes. sangue vezes sangue é igual a dor infinita. o prazer. a dor. ou ambos.

caminho agora absorto. nú e sem pele percorro caminhos limpos com cheiro a formol. Mastigo o bisturi que me há-de dilacerar o coração. Anseio a ferida. já não durmo, já nem sequer como. Deixei-me das necessidades para passá-las a barbaridades.

estás no bom caminho. mais vale rastejar do que andar. aguarda-te o lixo. anda. sem demoras.

foi assim que perdi uma segunda inocência. as vozes são intermitentes e não menos atrozes. ditam-me. escrutinam-me. não sei… já nem vejo o céu.

Sono acordado?

Publicado em à deriva por maquiavel, em Dezembro 1, 2009

Acordei de um sonho algo estranho. Palhaços corriam em círculos contínuos e incessantemente. Sem parar. Por vezes, alguns falavam comigo. Diziam-me:

Vês como é fácil? Sem temor, sem terror. É tudo tão fácil. Anda. Experimenta. Vais ver que te soltas desse teu corpo imundo e putrefacto.

Não sabia o que fazer ou dizer e deixava-me estar. Parado e imóvel. Decido aventurar-me nos pensamentos. Apenas ouço a voz interior. O meu único amigo. Companhia. Diz para voar. Sem pensar. Não o sei fazer. Nunca soube.

Sem temor, sem terror.

Não me sinto capaz. Não me sinto propriamente um Ícaro, além do mais não me apetece derreter as asas. Nunca tive vocação para anjo, nem sequer vontade. Essas mitologias já não me deslumbram. Já morreram. Faz muito, muito tempo. Mas mesmo assim, depois de tanto esforçar por contradizer aquilo em que já não acredito, decidi tentar uma última vez. Lancei-me de um prédio. Sem temor, sem terror…

Acordei na cama. Por estranho que pareça, vejo palhaços a correr a grande velocidade na janela. Batem-me à porta. Vou abrir. Um indivíduo cadavérico e muito velho. Olha-me intensamente sem dizer uma única palavra. Tem a cara pintada de branco e o nariz de vermelho. Passados alguns minutos desconfortáveis, diz:

Anda. Vamos voar. Sem temor, sem terror.

E fui. Nunca mais voltei a adormecer. Tenho insónias e nunca sei quando estou acordado ou a dormir. Já não sei se não consigo dormir ou se não consigo acordar…

(in)voluntário

Publicado em à deriva por maquiavel, em Dezembro 1, 2009

encontrei um pedaço de papel junto aos caixotes do lixo. Peguei nele e pus-me a tentar decifrá-lo. Queimei duas horas de sol e energia cerebral. Senti-me dividido entre o amor e a solidão. Preferi o último porque o amor já não existe.

voltei a fumar. reincidi. sou feliz agora. as vozes ainda me desesperam quando mais preciso. estou sempre só – desistir de viver – e talvez me suicide um dia destes.

decidi percorrer todos os museus da cidade, todas as exposições, quadros, instalações, tudo. quero vomitar arte, porque a arte imita a vida, ou é a vida que imita a arte. Não sei e não me sinto particularmente interessado em descobri-lo. quero sentir por sentir. por isso inflijo dor a mim próprio. prefiro cortar-me, é mais libertador.

deixei de comer. além de não sentir vontade, penso que devo iniciar uma revolução em mim mesmo. sou a minha própria semente de transformação. contudo, não acredito na reinvenção. creio no eterno retorno. no inalterado. o regresso.

somos agora mais próximos. sofremos juntos. morremos juntos. caminhamos juntos. nunca te separarás de mim. mas podes tentar… ao menos divertir-me-ei com alguma coisa.

já não sorrio. vivo sem expressões. morri, até disso já estou farto.
o mar acalma-me. a alma explode. o sangue respeita-me. o corpo obriga-me. a mente desfalece.
até um dia. até já. ou mesmo adeus, quem sabe…

Fugas

Publicado em à deriva por maquiavel, em Dezembro 1, 2009

O céu está de novo escurecido. Negro. Sinto-me morto. Sem vida. Vazio. Sopra o vento, deixa o sol queimar-te. Verás que a dor dissipar-se-á. Estás fraco. Estás seco… O ar liquefaz-se, o cenário asfixia-me. Sinto-me num contra-senso. Começo a correr para longe, sem destino.

A salvação aguarda-me algures, ou talvez em nenhures. Isso, corre, foge, abandona. Mais te afastas mais te aproximas do abismo sem retorno a ti. As vozes recomeçaram. Aumentam cada dia que passa. Cerro os olhos com toda a força que tenho e começa a socar os ouvidos.

Cada vez com mais força, talvez a raiva as faça desaparecer… Não consigo adormecer. Não consigo comer. Só consigo morrer.

(Re)torno

Publicado em à deriva por maquiavel, em Fevereiro 5, 2008

Percorro paisagens e paisagens em direcção ao nada. Múltiplas fracturas significam quimeras. O sonho acordado reflecte o meu eu paralelo aos meus eus quando durmo. A vigília confunde-se no sono. Esbatem-se pensamentos, discursos e narrativas.

Deixei de ser eu ou passei a ser eu? Fugi de mim ou retornei a mim?

Ressurjo das profundezas. Das cinzas do tempo refaço-me, como Fénix. Talvez me tenha absolutizado. A dor já não importa. Agora percorro desertos. Corro e corro e corro até ficar sem ar. Até cair no chão. Talvez morra feliz. Ou cansado. Já não sei o que digo.

De profundis clamo ad te, domine.

Noise. Texturas e progressão do meu eu.

Publicado em mudanças por maquiavel, em Maio 5, 2007

A cor uniforme do céu deixa-me psicótico. Não quero ser homogéneo. Não me vou padronizar. Basta.

White Noise nas escadas, escondem-se das plateias. O firmamento acompanha o solo. A orquestra pára. Noise. Perene e constante. Isto não sou eu.

Árvores e batidas formam-se inigualáveis. A morte em queda, no precipício daquela dor no fundo. No fundo do peito, ou do ser. Um deles. Já começo a ser eu.

A praia desliza pelo mar dentro, cobre o céu de espuma e vomita encrespada para o paredão. Não torna a amanhecer. Privamos o sono. Somos agora esquizo-afectivos. Morte. Quase eu.

Cores mudas, sons invisuais, o tacto cheira a carmim e o olfacto cobre-se de texturas amargas. Sou plenamente esquizo. Frénico esqueci-me. Mas gosto muito do esquizo, logo gosto de mim. Sou auto-destrutivo. Sou, enfim, feliz. Vivo no espaço que jamais cabe no tempo. Sou agora infinito e fragmentado. Não encaixo nas psicanálises, nem nisso. Sou um estrangeiro a tempo inteiro. Agora posso morrer sem dor. Enfim, feliz.